terça-feira, 14 de junho de 2011

Idade trava candidatura de Fischer à chefia do FMI


A candidatura do Governador do Banco de Israel, Stanley Fischer, foi excluída pelo FMI.

Candidatou-se à última hora e chegou a ser apontado por muitos como o substituto natural de Dominique Strauss-Kahn ao comando do FMI, mas, afinal, Stanley Fischer não reúne as condições necessárias.

Em comunicado, o FMI informa que apenas foram consideradas as candidaturas de Christine Lagarde e Agustin Carstens por estarem "em linha com o processo de selecção e com o regulamento do Fundo".

Ora as regras do FMI ditam que os candidatos devem ter no máximo 65 anos e Stanley Fischer tem 67.

Quando apresentou a candidatura, no sábado, o Governador do Banco de Israel assumiu poder tratar-se de "um processo complicado" e com possíveis "barreiras". Mesmo assim, decidiu avançar por considerar ser uma oportunidade "extraordinária" e "irrepetível".

Mas os analistas apontaram logo alguns entraves: Fischer esteve ligado ao resgate financeiro dos países asiáticos e da Rússia - por isso, com estes apoios já não contava.

Tinha nacionalidade norte-americana e israelita, - o que excluía logo o apoio dos árabes - e os europeus preferiram Christine Lagarde desde o início.

O mexicano Agustin Carstens tentou ser o candidato dos emergentes e esta segunda-feira voltou a dizer que uma candidatura europeia gera conflito de interesses, por estarem em curso os processos de ajuda externa.

Mas os apoios em torno da ministra francesa estão cada vez mais consolidados e Lagarde arrisca ser a primeira mulher no comando do FMI.

Vacinas salvariam 6,4 milhões


Milhões de vidas de crianças e bilhões de dólares poderiam ser poupados se houvesse maior disponibilidade de vacinas em 72 dos países mais pobres do mundo, revelou uma série de estudos divulgados nos periódicos Health Affairs e The Lancet

Cientistas e especialistas em saúde pública projetaram que, se 90% das crianças nesses países fossem imunizadas, seria possível poupar mais de US$ 151 bilhões em dez anos em tratamentos médicos e produtividade perdida que seriam evitados, rendendo benefícios econômicos de US$ 231 bilhões. E cerca de 6,4 milhões de vidas poderiam ser salvas, segundo os estudos.

Mas um estudo feito pela Aliança Global para Vacinas e Imunização (Gavi) e o Instituto de Resultados para o Desenvolvimento concluiu que os países pobres têm dificuldades em pagar por programas de vacinação sem a ajuda de doadores externos.

A vacinação é vista por muitos como uma das melhores opções para a saúde pública em países em desenvolvimento, porque pode proteger vidas produtivas e reduzir os custos de tratamentos e atendimento médico.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a erradicação da varíola, ao custo único de cerca de US$ 100 milhões, poupou ao mundo cerca de US$ 1,35 bilhão por ano desde que foi realizada, em 1979. "A ideia é simples: vacinas salvam vidas, previnem sofrimento e geram riqueza", escreveu no The Lancet o professor de pediatria Richard Moxon, da Universidade Oxford.

A vacinação infantil contra doenças como pneumonia pneumocócica, Haemophilus influenza tipo B, ou doença Hib, difteria, coqueluche, tétano, sarampo e rotavírus é feita rotineiramente nos países mais ricos, mas muitos países pobres têm pouco ou nenhum acesso a essas vacinas.

A Gavi, que financia programas de aquisição de vacinas ao atacado para países que não têm como arcar com os preços ocidentais, vai promover em Londres na próxima semana uma conferência de doadores, com o intuito de fechar um buraco de US$ 3,7 bilhões de financiamento em seus compromissos até 2015.

Várias empresas farmacêuticas grandes, incluindo GlaxoSmithKline, Merck, Crucell, da Johnson & Johnson's, e Sanofi Pasteur, da Sanofi-Aventis, se ofereceram esta semana a reduzir os preços de algumas de suas vacinas para os países em desenvolvimento, para tentar manter a oferta de vacinas por meio da Gavi.

E o governo britânico lançou um plano de donativos de 50 milhões de libras (US$ 82 milhões) para reforçar os recursos da Gavi. "Sem a ajuda importante de doadores internacionais, os países mais pobres terão dificuldade em arcar com os custos para levar vacinas que salvam vidas a todas suas crianças", disse Helen Saxenian, do Instituto de Resultados para o Desenvolvimento, em Washington.

A série da Health Affairs foi financiada pela Fundação Bill & Melinda Gates, um fundo de US$ 34 bilhões dedicado principalmente a projetos de saúde em países pobres. Gates também é um financiador importante da Gavi.

A Gavi diz que já preveniu mais de 5 milhões de mortes de crianças nos últimos dez anos e que vai prevenir outras 4 milhões até 2015, com os recursos necessários, através de programas de imunização que chegam a mais de 240 milhões de crianças.

Em seu artigo no The Lancet, Moxon e seus colegas argumentaram que, à medida que os países em desenvolvimento começam a ter condições para isso, eles devem contribuir mais para a saúde de suas populações, incluindo a imunização.

"A maioria dos países em desenvolvimento não prioriza a saúde suficientemente em seus orçamentos. Eles precisam ser persuadidos a assumir uma parte maior do ônus", escreveram os cientistas.

STF concede liberdade a Cesare (2/4)

STF sai reduzido após caso Battisti


A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada, de rejeitar o pedido de extradição do ex-ativista político Cesare Battisti pelo governo italiano colocou lenha em um debate em torno dos limites dos poderes do presidente da República e até onde a sua posição influencia ou não a mais alta Corte do país.


Relator do processo, o ministro Gilmar Mendes foi um dos três votos favoráveis à extradição em respeito ao tratado de extradição firmado entre os países em conflito em 1989. O voto foi dado de forma contrária ao posicionamento, que prevaleceu no STF, de rejeitar o recurso do governo italiano contra a decisão do então presidente Lula de manter Battisti como imigrante no Brasil.

Coordenador pedagógico da Escola de Direito do Brasil (EDB), o mato-grossense Mendes falou ao site Brasil Econômico as posições STF sobre assuntos do poder legislativo e defende a missão da Corte em proteger o indivíduo da sua própria "sanha".


Quais as consequências da decisão do STF sobre o caso Battisti?

O governo italiano já anunciou que recorrerá ao Tribunal Internacional da Haia e agora os Estados vão ter que se entender. Mas o meu posicionamento é claro. Nós acabamos permitindo, em uma segunda época, o resgate daquela ideia do refúgio. As razões do presidente Lula não diferem em nada das apontadas pelo ministro Tarso Genro [que no comando do Ministério da Justiça, em 2008, concedeu a Battisti sob a justificativa de que o ex-militante político viveria em ‘temor de perseguição' ao voltar à Itália] e que no meu entendimento era equivocado.

O papel do Tribunal sai fortemente reduzido desse tipo de interpretação. O que fica é a demonstração de que o executivo pode rasgar as decisões do STF como se fosse um título que ainda valesse [no primeiro julgamento sobre o caso o Supremo autorizou a extradição de Battisti diante de recurso impetrado pelo governo italiano, mas condicionou a decisão final a Lula, então presidente da República].



Tal entendimento estava embasado em experiências anteriores?

Nunca dantes neste país havia acontecido algo semelhante. Disse claramente em meu voto: ‘se permanecer dessa forma é melhor que a competência de julgar casos semelhantes desapareça do judiciário'. Fico imaginando no futuro as pressões que surgirão para que determinada pessoa não seja extraditada desde que o presidente assim não queira.

Esse é um entendimento que precisa ser revisto, se não pelo Tribunal, por uma reforma constitucional.



Como?

É necessário que se deixe claramente na Constituição de que não há sentido em dar esse poder [o de dar a ‘última palavra' sobre a decisão ou não de impedir a extradição de um refugiado] ao presidente da república. Sempre interpretamos a questão desta maneira, a novidade apareceu agora com o caso Battisti.



A Ministra Ellen Gracie anunciou que pretende se aposentar e com a sua saída restaria apenas o senhor e mais dois ministros, Marco Aurélio e Celso de Melo, não indicados pelo Partido dos Trabalhadores (PT). A situação nesse âmbito tende a ser mais suscetível à pressão política?

Nos conflitos que temos tido, em geral, raramente se percebe esse quadro de partidarização porque os critérios para a escolha dos membros do Tribunal foram diversos, em especial pelo governo do presidente Lula, para a escolha dos membros do Tribunal.

Compete mais aos críticos, aos estudiosos, aos acadêmicos fazer essa análise. Mas, em geral, não acho que isso ocorra. Nota-se pelos mais distintos posicionamentos que há neste grupo em questões importantes para o governo. E é bom que isso continue assim.

Se houver uma mudança isso será deplorável. Se começar a indicar juiz com esse viés partidário ou se quiser assumir compromissos políticos aí podemos ter o comprometimento da própria independência da Corte.



Sendo o governo conduzido por Dilma que tem uma característica mais ‘técnica' de gestão essa possibilidade fica ainda menor, concorda?

É. A única indicação feita até agora foi a do Ministro Luis Fux, que fora indicado para o STJ [Supremo Tribunal de Justiça] pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e que, portanto, não tem vinculação estrita com o PT.



Logo que o Ministro Luiz Fux assumiu, inclusive, houve a decisão de não aplicar a lei Ficha Limpa para as eleições de 2010. O senhor avalia que o STF acabou sendo mais uma vez avaliado de forma negativa pela sociedade como em casos anteriores, quando, por exemplo, o Ministro Joaquim Barbosa bradou ao senhor o famoso "saia à rua"?

Na rua a gente encontra um monte de coisa. Não sei se a justiça se busca na rua. O meu conceito é outro. E acho que o Tribunal, inclusive, não pode desconhecer a realidade, mas ele não tem que decidir segundo os ritmos da rua. Até porque a rua é desorganizada. Se você se orienta pelo que diz as ruas você vai dar passos de bêbado. E a justiça não deve fazer isso.

Por outro lado, a missão do Tribunal é muito complexa porque ela faz o exame da legislação, das decisões majoritárias, e tem que decidir contrariando a opinião política majoritária e a própria opinião pública.

A missão é difícil porque as vezes o Tribunal precisa defender o indivíduo da sua própria sanha. Um indivíduo que defende a arbitrariedade policial, daqui a pouco será vítima dela. Então quando o Tribunal coíbe a arbitrariedade policial ele está protegendo o indivíduo que defende isso contra si mesmo.



Em outra decisão recente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) corroborou a decisão de não instaurar processos administrativos contra o desembargador federal Fausto De Sanctis por suposta desobediência no processo que levou à prisão o banqueiro Daniel Dantas. Ele mandou prender o reú mesmo após o senhor ter concedido habeas corpus. O senhor considera a um desrespeito ao STF?

Era um momento singular pelo qual passava o país. Esses grupamentos de polícia, setores do Ministério Público e da Justiça desempenhavam um papel ímpar. Eram como a jabuticaba, uma coisa especial que só existe no Brasil e não é boa. Acho que essas pessoas se sentiram suficientemente fortes imaginando que podiam fazer isso - editar um decreto de prisão preventiva dez horas depois de uma decisão do Supremo libertação do réu. Mas acho que agora já está tudo muito esclarecido.



O senhor acha possível que os advogados de Dantas devem ir ao Supremo ainda exigir punição para o De Sanctis?

Não imagino que isso seja relevante. Acho que o importante é que se desmontou esse sistema. Depois que o Tribunal se posicionou, editou a súmula das algemas [em agosto de 2008 limitou o uso das correntes a presos que oferecerem resistência a prisão ou colocar em risco a vida de terceiros], houve uma revisão das práticas das prisões espetaculares por parte da polícia. Hoje voltamos a um quadro de normalidade e vamos até rir disso ao lembrar que ‘há dois anos existia um juiz que enfrentava o STF'. Vai entrar para o folclore.



Assim como há demonstrações de desrespeito às decisões do STF, há críticos que consideram excessos da Corte ao tocar em temas da competência legislativo como no caso da guerra fiscal e da união homoafetiva. Como o senhor avalia isso?

Quando algum dos poderes assume uma posição há sempre algum tipo de apontamento de um quadro de anormalidade. Mas a questão da guerra fiscal já estava judicializada porque muitos dos benefícios de isenção de ICMS são concebidos sem as observâncias de regras do Confaz [Conselho Nacional de Política Fazendária], como é definido pela Constituição.

O Tribunal demorou muito tempo para julgar, mas não há aqui nenhuma exorbitância. Apenas declara a inconstitucionalidade da lei quem concede o benefício sem a autorização do Confaz. Agora, em relação ao caso da união homoafetiva, temos um caso clássico de demora na condução de algumas disciplinas por parte do legislativo. De qualquer forma, nossa decisão vai ter que ser complementada pelo poder legislativo.



O pleito de divisão dos estados do Pará será um outro aspecto legal sobre o qual o STF deverá se posicionar [existem dúvidas de como a Constituição deve ser interpretada]. Como o senhor avalia a questão?

Em princípio, pela lógica, a separação de áreas vai envolver o pronunciamento de todos os setores envolvidos. Por enquanto, ainda não tenho conhecimento se há alguma ação no Supremo sobre esse assunto em específico, mas creio que a ação vai acabar sendo judicializada. Mas temos alguma prática no que diz respeito a municípios, cujos desmembramentos foram mais rotineiros.



Como desafogar o STF?

Reduzimos muito a distribuição de processos no STF. Antes eram 100 mil processos por ano. E ano passado foram 30 mil, o que já é um passo significativo. Temos que continuar até porque o excesso de processos é resultado da desorganização do judiciário. Quanto mais processos mais chances de termos recursos protelatórios que gerem atrasos que nos envergonhem depois.



A arbitragem é solução?

A sociedade tem que encontrar novas formas de resolver os seus conflitos. O judiciário é uma das formas, mas não pode ser a única. É preciso que a própria administração com orientação apliquem bem o direito.

Há uma massa de casos hoje na justiça tratando sobre cobranças de contas, multas indevidas, e tudo cai no judiciário. Não é razoável. A agenda reguladora, a Anatel, deveria cuidar disso. A sociedade precisa se organizar de outra maneira. Tramitam por ano no Brasil 85 milhões de processos, são 25 milhões de processos novos. Isso é algo anormal.



A quantidade maior de advogados em relação ao número de engenheiros, por exemplo, reflete o estágio ainda lento de desenvolvimento da sociedade brasileira?



O fato de não termos outros mecanismos de solução de conflitos levam as pessoas à justiça, e aí o número de bacharéis acaba sendo um estímulo. Mas imagino que se os pleitos pudessem ser resolvidos no âmbito do administrativo os advogados atuariam lá e não precisariam ir a justiça.

Imagino que toda essa assessoria jurídica iria para locais onde a solução de controvérsias possam ser resolvidas de maneira mais célere. E o Brasil ainda nem chegou em nível ao ápice da crise porque o Brasil tem uma demanda recôndita. Muitas pessoas não têm seus pleitos atendidos porque não vão à justiça.
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